Um novo documento de trabalho do Fundo Monetário Internacional (FMI) conclui que as stablecoins atreladas ao dólar podem amplificar corridas cambiais em economias que defendem uma taxa de câmbio fixa sobrevalorizada, transformando preços fragmentados de mercados paralelos em um único sinal que permite que os lares saiam do sistema simultaneamente. O pesquisador do FMI Brandon Joel Tan descreve um efeito dependente do estado. Segundo o artigo, as stablecoins elevam o bem-estar durante períodos de calma, mas aprofundam o risco de crise assim que um regime de câmbio fixo se torna gravemente desalinhado.
Quando um governo mantém uma taxa oficial distante do nível de mercado, a moeda estrangeira é racionada. Os compradores, então, recorrem a mercados paralelos para obter dólares. Esses mercados permanecem fragmentados: cambistas de rua, corretores e bancos cotam preços diferentes, e nenhum valor isolado capta com precisão a verdadeira escassez.A pesquisa do FMI mostra que as stablecoins alteram esse cenário. Um token atrelado ao dólar, como o Tether ($USDT), é negociado contra a moeda local em exchanges. Esse preço é visível e atualizado constantemente, tornando-se, assim, uma referência comum para o dólar paralelo. Uma melhor descoberta de preços ajuda os lares a se protegerem contra riscos cambiais. Contudo, o mesmo preço público pode coordenar uma saída em massa, pois todos reagem ao mesmo número, ao mesmo tempo.A Bolívia ilustra essa mudança. O banco central suspendeu as restrições às transações com ativos virtuais em junho de 2024. Entre julho de 2024 e maio de 2025, tais transações no sistema financeiro multiplicaram-se por doze. A taxa de conversão entre $USDT e boliviano passou, então, a ser a referência cotidiana para o dólar paralelo. O próprio banco central começou a publicar os preços do $USDT em seu site.Tan simula três economias para isolar esse efeito. Ele compara três configurações: um mercado exclusivamente em espécie, um mercado com stablecoins que apenas reduz os custos de acesso e outro que também aprimora a precisão do preço público.A exposição média à crise aumenta de 3,9% na economia exclusivamente em espécie para 7,4% na economia plenamente baseada em stablecoins. No caso de desalinhamento mais severo, essa exposição sobe de 4,8% para 12,9%. A diferença entre a segunda e a terceira economia é o ponto central da análise de Tan. Um acesso mais barato facilita a execução da saída; um preço público mais preciso facilita sua coordenação, e é justamente esse efeito de coordenação que explica a maior parte do risco adicional.O bem-estar apresenta uma narrativa bifronte. O ganho atinge seu pico próximo de 1,2% durante condições tranquilas, mas torna-se negativo após um limiar de desalinhamento em torno de 0,59, chegando a –6,3% no extremo.Portanto, Tan afirma que restrições amplas podem ser regressivas, já que retiram dos lares não bancarizados uma opção de acesso ao dólar de baixo custo. Ao mesmo tempo, ele enfatiza que as regras aplicáveis às stablecoins não podem substituir os ajustes macroeconômicos necessários.Os documentos de trabalho do FMI refletem a pesquisa dos respectivos autores, não a posição oficial da instituição. Mesmo assim, essa análise reforça um debate regulatório em curso, à medida que os governos elaboram seus marcos regulatórios para stablecoins.